O Buraquinho
— desde 1927 —

O desafio era tremendo: respeitar e preservar a herança e a história d’ “O Buraquinho” uma das tascas mais típicas e conhecidas do Porto. E se calhar, o mais fácil, era ter deixado cair, fechar e ficava só na memória dos muitos que desde 1927 a frequentaram. Mas Marta Quitério e Sérgio Costa encheram-se de brios, foram à luta, arriscaram na remodelação do espaço, respeitando todo um passado único, e ganham a aposta diariamente, cumprindo, à risca, a receita que lhes foi transmitida, com afinco, pelo antigo proprietário, Artur Sousa: “disse-nos para mantermos sempre a boa disposição e estar sempre atentos aos clientes, com motivação e dedicação intensiva. É isso que fazemos, quase que vivemos para isto”.

Até 1916, a praça dos Poveiros, um dos logradouros mais pitorescos do Porto, era conhecida como largo de Santo André, em honra do santo padroeiro de uma pequena ermida que ali existia desde inícios do século XIX. A nova toponímia, praça dos Poveiros, surgiu como homenagem ao patriotismo dos pescadores da Póvoa de Varzim emigrados no Brasil, que recusaram a cidadania brasileira imposta pelo governo.

Onze anos depois, já em 1927, a colectividade de moradores da praça dos Poveiros transformou a cave da porta 33 num espaço de tertúlias e convívio, onde se batia a carta, a pares ou a seis, consoante o gosto ou a aposta. Do nada surgiram as cadeiras, o balcão e as pipas, trazidas das gentes do bairro, e de outros lugares, tal era a fama da cave dos Poveiros, ou “O Buraquinho”, como também era chamada, de boca em boca, pelas gentes do Porto.

Em meados dos anos 40, Augusto Santos, um assíduo frequentador, teve a ideia de dar a provar, nas toscas mesas da cave, a boa petiscada confeccionada pela esposa Cármen Rosa. O regalo e o reconhecimento foi tal que propôs na hora ao responsável da colectividade a confecção e venda de petiscos. Dentro do cardápio típico que ainda hoje é servido, as iguarias mais requisitadas da época eram o “pudim de sangue cozido”, a “língua estufada” ou os “pézinhos de carneiro”, a par com o vinho de Mêda servido a granel, que se tornaram famosos no Porto, pelo que a 11 de Novembro de 1955, a coletividade cedeu a exploração da cave ao casal, como “adega aberta ao público” até aos dias de hoje, com várias passagens de testemunho pelo caminho. A primeira decorreu do falecimento precoce de Augusto Santos, ficando o testemunho com o segundo filho do casal, o jovem Artur, que viria, contando com a preciosa ajuda da mãe e da esposa Ana Augusta, a manter as portas abertas d’O Buraquinho até 2015, altura em que terá passado o segundo testemunho para a Marta Quitério e o Sérgio Costa.

Cliente da casa, a Marta Quitério encontrava-se n’O Buraquinho a saborear umas deliciosas papas de sarrabulho quando surgiu, em conversa com o Ana Augusta e o Artur Santos, o tema era a continuidade do espaço. A meias com as histórias, as tradições e a vontade em preservar uma casa com noventa anos de existência, nasceu na Marta a firme convicção de que este seria um caminho a seguir. O primeiro passo na concretização da ideia foi recrutar “a pessoa certa”, o Sérgio Costa, para que juntos, pudessem demonstrar que reuniam as condições ideias para honrar o nome do estabelecimento e mudar de projeto de vida.

Marta Quitério nunca tinha trabalhado na restauração. Mas tinha um sonho: “ser tasqueira”. Já Sérgio Costa era dono de alguma experiência na área, mas ficar com “O Buraquinho” era tarefa incomparável. O primeiro segredo conta novamente Marta Quitério, foi ouvir com muita atenção Artur Santos, que “sempre acompanhou” os dois “aventureiros” nos primeiros tempos: “Tivemos a companhia deliciosa por parte do senhor Artur, que nos passou todos os segredos e receitas originárias. A mão é diferente, sabemos isso, mas o empenho e gosto é igual”. Aos habituais e reconhecidíssimos petiscos feitos à base de porco, como rojões, moelas, bucho, tripas, alheiras, papas de sarrabulho e o dominical Rancho, junta-se a alternativa, para “abranger um outro tipo de clientela”, como as Moelas, pataniscas, salada de bacalhau com grão e salada de atum com feijão-frade. A “resistência” ao princípio “era muita”, mas agora, com um “muito esforço para quebrar essa barreira”, “O Buraquinho” está preparado para “os novos tempos”, com esforço redobrado e a mesma qualidade.

 
O buraquinho

 

2017-12-20T11:29:05+00:00