Casa Aleixo
— desde 1948 —

Muitas são as memórias que Ramiro, proprietário da casa Aleixo na rua da estação, nº216, no Porto, tem para nos contar, todas elas relatadas com uma fidelidade e detalhe de quem não esquece facilmente. Porém, quando indagado sobre o que este emblemático restaurante significa para si, Ramiro faz-se parco em palavras, afogado numa “carrada de emoções”. Diz simplesmente: “o Aleixo representa a minha vida”. Uma vida de quem cresceu debaixo do balcão, de quem testemunhou a mudança de tempos e vontades, de quem aprendeu que a família nuclear não termina só nos laços de sangue.

A história do estabelecimento tem início com a chegada ao Porto de um rapazito de doze anos, os únicos pertences, a roupa que trazia no corpo. Este era o pai de Ramiro, também ele de nome Ramiro, um moço que pela força das circunstâncias se viu obrigado a fazer homem, num salto que, na verdade, ninguém está preparado para dar. Os primeiros anos no Porto foram longos e pesarosos, mas a esperança de uma vida melhor começou a espreitar quando Ramiro foi trabalhar para o restaurante Aleixo. Anos passaram até que finalmente a dedicação e afinco de Ramiro lhe valeram um voto de confiança por parte dos anteriores proprietários do Aleixo, Adelino e João Corais, ao lhe proporem o trespasse do negócio. Com redobrado entusiasmo, leva o restaurante rumo ao futuro e, apesar do Aleixo não ter mudado radicalmente desde a sua incepção, Ramiro imprime o seu cunho pessoal à casa. Ramiro (o filho) relembra com um sorriso na face e a ocasional gargalhada, as designações que seu pai foi atribuindo às várias secções do restaurante: cozinha era o laboratório, sala de jantar era a sala de operações, adega era a farmácia, casa de banho era a esterilização e o local onde faziam as contas era a sala de torturas! Claro que levar a casa adiante não era tarefa fácil, contudo, Ramiro (o pai), já casado, vale-se da ajuda preciosa da esposa, Maria Inês, para o conseguir.

A vida continuou e nova vida brotou, sob a forma de outro Ramiro, desta feita mais pequenino. Nascido, criado e feito no Aleixo, não deixou de conhecer a vizinhança, que, por sua vez o acarinhou e tratou como um filho. Muito se diz sobre o afamado atendimento português, mas Ramiro relembra-nos que há sempre uma pessoa por trás do comerciante. José (conhecido como Chasco), e Lucinda, proprietários de uma drogaria precisamente em frente ao Aleixo, foram-se apercebendo do frenesim que era cuidar de uma criança num estabelecimento tão frequentado e decidiram estender a mão. O nosso irrequieto menino começa a passar muito tempo com quem viria a chamar de avô e avó, memórias que ainda hoje recorda com ternura e agradecimento.

No estabelecimento desta segunda família, Ramiro vai conhecendo os cantos à casa e volta e meia, lá se vai esticando para se pôr atrás do balcão, revelando um traço que já se começava a desenvolver no Aleixo – tinha gosto em lidar com o público. O leitor antecipa-se: Ramiro toma conta do Aleixo e acaba a história. Na verdade, apesar deste gosto pelo atendimento, Ramiro, chegada a sua idade adulta, não tinha intenções de seguir as passadas dos pais. Porém, antes de poder decidir o seu futuro, o dever militar envia-o para a Guiné. E lá foi para terras estrangeiras, com o coração em Portugal. Escrevia frequentemente aos pais e ao amor que deixara do outro lado do mundo. As ansiadas respostas ajudavam-no a manter a esperança de rever tudo o que deixara para trás. Se a vida de um indivíduo são as suas memórias, Ramiro exibe-a com orgulho no interior do seu estabelecimento, através da correspondência do tempo de guerra, exposta nas paredes.

Ramiro regressou a um Portugal pós 25 de Abril, em que as oportunidades de trabalho eram reduzidas. A sua futura esposa, Maria da Conceição, com o curso de educadora de infância concluído e empregada, olha-o e encolhe os ombros como quem diz: “agora só faltas tu.”
Com uma vontade indomável de constituir família, o ex-militar voltou a considerar uma vida na restauração e decidiu agarrar a oportunidade. Iniciou oficialmente o seu percurso no Aleixo, que se prolongaria durante muitos anos e assistiu à vertiginosa evolução do Porto. Observou à medida que os carros de bois, utilizados para transportar mercadorias e víveres de e para campanhã, foram sendo substituídos por carroças de cavalos e posteriormente por camiões. Testemunhou a formação de ilhas, designação atribuída a ruas repletas de pequenas casas de trabalhadores fabris, reflexo da evolução industrial da cidade.

Conheceu as gentes e celebridades do Porto que frequentavam assiduamente o seu estabelecimento. Enfim, viveu e respirou a Invicta como poucos o fizeram, mas acima de tudo, transformou uma tasca em que se comia muito bem, num restaurante de renome.  
Casa Aleixo

 

2018-06-04T15:20:48+00:00